domingo, 15 de maio de 2011

rester debout

olha o poço aqui do meu lado. eu não vou pular, eu não vou pular - pensa ela com as pernas lá dentro.


a moça está dormindo além do necessário fisiologicamente falando. sentimentalmente poderia passar a vida toda dormindo pra não ver tanta falsidade e falta de carinho de gente que não sabe cuidar das flores que plantou. dia desses a mãe da moça disse à ela que não estava gostando de vê-la dormir tanto. a mãe a conhece muito bem e sabe de onde isso vem e o que isso causa. a filha também sabe qual é o caminho tortuoso que está seguindo e o que vai encontrar lá no final. de vez em quando ela para no meio do caminho e senta no chão. não há conforto nenhum - nem pelo trajeto nem nela mesma. depois de descansar de si mesmo e do que tem pela frente, a moça se levanta e continua o que havia postergado. lá segue ela. o lugar é escuro, chove quase todos dias e não há ninguém com quem compartilhar os seus anseios. algumas vezes alguém de fora se perde na estrada e tenta levar a moça pra casa. mas ela não vê essa gente. estão em um nível acima do que os olhos permitem ver. no caminho tem pedras grandes e soltas, corujas e grilos e tem a assustadora voz do vento. o sussurro do vento ainda é o que mais se a próxima do que é vida pra ela. é o som do silêncio. às vezes ela tem medo. medo de desistir da vida, medo de ir até o final e encontrar o maldito, medo de paralisar. medo das pessoas. medo do medo. então ela pensa em voltar pra sua gente. como alguém que viaja pra longe e quando volta vê no portão de desembarque quem mais importa e fica feliz como se tivesse sido salvo da selva. mas ela não sabe voltar sozinha. ela já percorreu esse maldito caminho vááárias vezes e você que me lê sabe o quanto ela demorou pra achar um atalho pra casa. ô coisa demorada e tempo doído. dor, isso ela sente muito. ela anda de pés descalços. ela é desse jeito, você sabe, verdadeira e sem máscaras, escudos ou proteções. por isso fica assim, sangrando a toa. ela não quer mais usar dos habituais subterfúgios. ela quer viver, será que é tão difícil alcançar a plenitude? na sua rota, de longe, ela avista o maldito: o poço. que tenha mola no fundo - pensa ela quase orando. que tenha mola, que tenha mola. chegando lá, ela olha pra dentro e não vê nada além do breu. ela pensa nela e nas flores que tinha antes de cair nesse caminho e nada aparece - só o breu. ela pensa nas pessoas esporádicas que ela conheceu, só vê o breu. ninguém foi luz suficiente. ou foram demais e a cegaram ou não se acenderam. então ela olha pro alto e muda de pensamento. mas o céu também está todo escuro. ela fala pra ninguém: olha o poço aqui do meu lado. esperançosa que alguém pule junto ou arranque-a de lá.  eu não vou pular, eu não vou pular - pensa ela com as pernas lá dentro.


"A desilusão é a visita da verdade." Chico Xavier

"Aprendi que a desilusão é uma das piores dores. Pois ninguém se ilude com aqueles que conhece, mas sim com os que pensa que conhece." Helber Chin Ku Chon Choo

"Escrever é um dom que se aprimora com a depressão." Bianka Raphaela



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