sexta-feira, 27 de maio de 2011

o ímã da geladeira

Não creio que já passou mais uma semana. E mais inacreditável é pensar em tudo que aconteceu no último final de semana. Sadness. Mas o que se pode fazer com a vida se a morte chega de surpresa? Enfim. Vivemos enquanto podemos. Na minha curta vida muitas pessoas apareceram e se foram na mesma velocidade. Tão rápidas quanto a luz. Talvez tivesse sido legal ter conhecido algumas verdadeiramente e não tê-las apenas como meras 'conhecidas' de rua, de escola, de internet, de acasos. Há muito tempo reflito a respeito disso. Quantas pessoas que eu tive a chance de ser amiga e não fui nada? Quantas eu julguei como insignificante quando podiam mudar a minha vida? E eu ainda continuo fazendo isso, embora faça com menos frequencia. Percebi que tratava as pessoas com um ar antipático de puro desprezo. Eram poucas as pessoas que me magnetizavam como um ímã. Dos poucos ímãs que encontrei na vida, e não na geladeira, todos eram levemente esquisitos. Tímidos demais, solitários por baixa autoestima, o único ser de outra raça numa sala de 30 alunos. O mais interessante disso é que todos tinham uma semelhança: eram inteligentes e doces. Não eram as características psicológicas ou fisícas que me magnetizavam. Era a maneira como eles carregavam a mala pesada do convívio social com todo esmero. Se aguentavam sem ajuda de ninguém. Tal qual o ímã sozinho preso à geladeira. Está lá se segurando sozinho enquanto é visto por quem chega perto. E de tanto chegar perto nem o percebe mais. Está ali, estagnado, sem valor, sem cor. Daí vem a Bruna e mexe nele. Ajusta-o. Coloca-o em lugar de destaque. Reorganiza a geladeira e reúne todos os outros ímãs dispersos. Eis a amizade. Às vezes, na hora de ajeitá-los, alguns caem ou escapam das mãos. Então eu os recolho. Às vezes alguns não querem voltar, então os deixo quietos, embora eu reconheça o valor que têm. Enfim. Eis o mais bonito: a tolerância. Eu adoro imperfeições. Esse jeito esculhambado que as pessoas têm. Os dentes tortos, os olhos levemente caídos, o cabelo mal penteado, a roupa amassada. Adoro. Adoro mais ainda quando são doces. Quando elas querem estar perto de outras sem se sentirem na obrigação de ser algo que não são. Quanto mais simples, mais magnetizante é. Talvez seja por isso que ando sozinha. As pessoas tendem a pensar que precisam ser muito pra ter outras por perto. Eu não quero muito nem pra mim, nem pros outros. Eu só quero que sejam o que são, daí eu vejo se gosto. Se gostarem de mim, aproximem-se. O tempo não para e ficar parado é perda de tempo.

"Os tímidos sempre impressionam aqueles que tem paciência de conhecê-los melhor."


http://www.jornalpanorama.com.br/?p=33180 (publicada nesta semana - para uma pessoa como um imã dos meus)

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Dum dum da da-da, da-da-da da-da

I won't cry for you
I won't crucify the things you, do, do, do
I won't cry for you
See, when you're gonna still be Bloody Mary


Nesses dias, passados rápidos e despercebidos, meu amigo-irmão-camarada Lu(lu Santos) Ott contactou-me para a notícia do ano: vazou o Born This Way. E-mail e Twitter. Ele sabia que isso surtiria efeito sobre mim. Não surtiu. Enviou-me o link para baixar. Baixei meio contra gosto. Abri o arquivo: não era o álbum da Gaga. Oh shit, it's wrong! Desanimei e mandei ele pastar. Não demorou muito, veio ele do pasto me dizer que o cd era tão ruim quanto o flopado Bionic da Christina Aguilera. Espertinho que só, não se deu a vergonha na cara de me enviar o link certo. Que amigo é este? Disse a ele que um dia eu baixaria. Estava dando a mínima, afinal pouco importa. Deve ter passado uns dois dias quando um colega de trabalho veio até a mim e soltou a máxima: O que tu achou do cd da Gaga? Ora, o destino me pressionando para ter uma opinião sobre o lançamento do ano. Não ouvi ainda - disse eu observando a empolgação do colega. Eu tenho ele aqui, quer? Educado que só, foi um gesto de cortesia, afinal, foi eu que o apresentei ao Femme Fatale. Quero. Quero? Sim, me pouparia acessos ao Orkut ou 4shared até encontrar o link correto que o imprestável do meu único amigo não se deu o trabalho de me enviar. Enquanto copiava o arquivo no meu pen drive, meu colega tagarelava a respeito das músicas. Born This Way e The Edge Of Glory são as preferidas dele Compreensível já que é gay. Todo gay gosta de quem faz músicas para eles e sobre a causa deles. Compreensível. O que me ocorre agora é que a preferida dele de todo o trabalho da Gaga é a miserenta Telephone! Meu Deus, Telephone! Aquela com um clipe tosco, com um feat da mais nova loira oxigenada do mundo pop, Beyoncé Knowles. Credo. Que me dissesse que a melhor fosse Poker Face, Paparazzi ou até a horripilante Bad Romance, mas Telephone não! Gosto é muito particular MESMO. Eu me atrevo a dizer que a melhor música da Gaguinha é Alejandro. Essa sim. Recordo-me de quando ouvi pela primeira vez a demo bem diferente da versão final. Paixão à primeira ouvida. E a letra? Per-fei-ta. Eu toda vez que a ouço imagino um clipe muito mais humano e coerente do que o gravado. Eu deveria ser roteirista, cara. Bem, depois deste adendo volto ao assunto: chegando em casa abri a pasta e me deparei com 14 faixas em m4a. Oh shit, mais essa! Converter já. Converteu e eu me dei o dispendioso luxo de ouvir uma por uma para ter subsídios em uma futura crítica. Play.

A primeira, Marry The Night é ótima. E a escolha dela para ser a primeira do álbum foi a dedo. É boa pra arrumar o quarto naqueles dias em que o desânimo toma conta. A segunda, Born This Way, eu fiz questão de não ouvir. Afinal, eu não mereço emprestar meus ouvidos para o que eu sei que não me agrada. A faixa três Goverment Hooker, que já não me atrai desde quando eu vi o seu nome, é umas da que eu não curti. Muito anos 90 pro meu gosto. A música seguinte é Judas. Bendito Judas. Viciante. Logo que saiu na web eu achei uma grande porcaria. Mas depois, não sei porque, viciei. Deve ser o efeito isolador dessas persianas cinzas, do meu local de trabalho, que eu vejo todos dias na minha frente. Qualquer coisa se torna uma válvula de escape. E o clipe? Gostei também. Não entendi bulhufas, mas aprecio a idéia de gravações a céu aberto. Seguindo o baile, cheguei na Americano. Não sei ainda se gosto ou não. Ela me lembra a Don't speak americano do Yolanda Be Cool. Ou seja, um tanto hilária e que não pega confiança. Depois dela vem a Hair, que também estava na web antes de tudo vazar. Quando ela foi disponibilizada eu realmente não tinha curtido, mas ouvindo agora para escrever esse post até que é boazinha. Nota 5 pra ela, podendo chegar a 8 daqui há uma semana. A faixa sete, meu número, é muuuuito boa. Eu já a conhecia de outros carnavais, porém não na versão final. Se trata de Scheiße, merda em alemão, tem a letra complicada. Gaga diz I don't speak German but I wish I could - bem que ela tenta. É a típica música de desfile. Certo que entraria no álbum das 15 melhores do Celso Portiolli.
Então, mais ou menos nessa hora eu comecei a pesquisar sobre o que os fãs dela estavam achando sobre o álbum vazado. Na comunidade dela no Orkut tinha de tudo. Tinha até a track list com 17 músicas. SIM, me faltavam 3 e eu não sabia. Quem me conhece sabe que preciso dos álbuns completos pra ser feliz. Fui até a minha mina de carvão e encontrei o diamante, aliás, dois: o cd com 17 faixas e o disco 2 da versão deluxe com remixes. Rá. Baixei as faixas que me faltavam e renomeei os arquivos. Os números eram diferentes e os que eu disse aqui certamente estão errados, porque o cd que tenho comigo now é o com 14 faixas. Sorry.
Voltando ao raciocínio lógico: a faixa que procede Scheiße é a magnífica, a majestosa, a incomparável, a insubstituível, a insuperável Bloody Mary. Oh Jesus! Por essa eu não esperava. Merecia um post exclusivo. Mas vou me segurar. Bloody Mary é inimaginável. Começa como música sapeca, como se fosse trilha de Esqueceram de Mim, quando chega aos 10 segundos parece O Fantasma da Ópera e logo começa a batida a la Gaga. Genial! E a letra? Show! Revoltstotal. Música de labirinto, monastério e manicômio. Música que tem a obrigação de ser single, ter um clipe bafônico, ficar no topo dos charts mundo afora e concorrer ao Grammy. A melhor de Born This Way sem sombra de dúvidas. E se não bastasse ser perfeita, Gaga ainda fala em português no final: liberdade e amor. Dum dum da da-da, da-da-da da-da. Divina.
O que vem depois quase pouco importa, mas vou falar porque tem músicas boas. Se bem me lembro, a música seguinte é uma daquelas três que não tenho aqui: Black Jesus Amen Fashion, Fashion Of His Love e The Queen. Dessas só a última é audível e é ma-ra, as outras não passam de um amontoado de barulhos que não tem futuro nenhum. Bad Kid é a nove daquelas 14. Excelente. Desse cd essa deve ser a música mais boca suja, embora o som às vezes pareça doce. "Don't be insecure if your heart is pure/ You're still good to me if you're a bad kid bad." É agitadinha e boa pra distrair. Highway Unicorn (Road 2 Love) é óóóótima. Dançante, crazy e com uma letra fora da casinha. Repetitiva do início ao fim, mas muda o ritmo de uma hora pra outra. Gaga grita como se tivesse suplicando. Indefinível, por isso ma-ra. É uma das canções junto com Scheiße em que a gente percebe a voz linda da Lady Gaga. Heavy Mental Lover, musicalmente nada a ver com a Gaga. Não consigo nem imaginar a que isso se aproxima. Muito eletrônica pro meu gosto. Não precisava ter entrado no álbum. Electric Chapel é uma amostra do que mais se aproxima de um possível rock em Born This Way até os seus 30 segundos iniciais. Depois eu tenho a leve impressão de estar ouvindo uma música chinesa-coreana-seiláoque. E lá pelos 1:30 o rock volta seguido de um coreano meio russo que é o inglês natural dela. Me explica, Stefani Germanotta, o que você tentou fazer e não conseguiu? Vamos até a capela elétrica e você nos conta, tá? Obrigada. You and I já curtia há tempos, mas não quero como single. The Edge Of Glory não curti, desculpe.

No fim das contas, o álbum que tinha tudo pra fracassar se superou. Sete faixas excelentes, cinco sem sal, três levemente apimentadas e duas sem nexo. Parabéns, Lady! You're the queen. Mas no próximo álbum não me venha com papos gays, apóstolos e o clero todo, tá? Um só basta. O álbum todo é um culto. Gaga recria cânticos em todas as músicas. É como se quem ouvisse passasse todas as músicas rezando. Só não sei sobre o que é a oração. Ao pop, à Gaga, à música, whatever.

PS: Todas as roxinhas são nota 10 e merecem ser singles. As verdinhas são nota 5 podendo alçar grandes voos. As vermelhinhas são horriveizinhas. E as rosas dão um choque no bom gosto




"Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música." Aldous Huxley

"A música expressa o que não pode ser dito em palavras mas não pode permanecer em silêncio." Victor Hugo

"Sempre tive a impressão de que a música fosse apenas o extravasamento de um grande silêncio." Marguerite Yourcenar

domingo, 15 de maio de 2011

rester debout

olha o poço aqui do meu lado. eu não vou pular, eu não vou pular - pensa ela com as pernas lá dentro.


a moça está dormindo além do necessário fisiologicamente falando. sentimentalmente poderia passar a vida toda dormindo pra não ver tanta falsidade e falta de carinho de gente que não sabe cuidar das flores que plantou. dia desses a mãe da moça disse à ela que não estava gostando de vê-la dormir tanto. a mãe a conhece muito bem e sabe de onde isso vem e o que isso causa. a filha também sabe qual é o caminho tortuoso que está seguindo e o que vai encontrar lá no final. de vez em quando ela para no meio do caminho e senta no chão. não há conforto nenhum - nem pelo trajeto nem nela mesma. depois de descansar de si mesmo e do que tem pela frente, a moça se levanta e continua o que havia postergado. lá segue ela. o lugar é escuro, chove quase todos dias e não há ninguém com quem compartilhar os seus anseios. algumas vezes alguém de fora se perde na estrada e tenta levar a moça pra casa. mas ela não vê essa gente. estão em um nível acima do que os olhos permitem ver. no caminho tem pedras grandes e soltas, corujas e grilos e tem a assustadora voz do vento. o sussurro do vento ainda é o que mais se a próxima do que é vida pra ela. é o som do silêncio. às vezes ela tem medo. medo de desistir da vida, medo de ir até o final e encontrar o maldito, medo de paralisar. medo das pessoas. medo do medo. então ela pensa em voltar pra sua gente. como alguém que viaja pra longe e quando volta vê no portão de desembarque quem mais importa e fica feliz como se tivesse sido salvo da selva. mas ela não sabe voltar sozinha. ela já percorreu esse maldito caminho vááárias vezes e você que me lê sabe o quanto ela demorou pra achar um atalho pra casa. ô coisa demorada e tempo doído. dor, isso ela sente muito. ela anda de pés descalços. ela é desse jeito, você sabe, verdadeira e sem máscaras, escudos ou proteções. por isso fica assim, sangrando a toa. ela não quer mais usar dos habituais subterfúgios. ela quer viver, será que é tão difícil alcançar a plenitude? na sua rota, de longe, ela avista o maldito: o poço. que tenha mola no fundo - pensa ela quase orando. que tenha mola, que tenha mola. chegando lá, ela olha pra dentro e não vê nada além do breu. ela pensa nela e nas flores que tinha antes de cair nesse caminho e nada aparece - só o breu. ela pensa nas pessoas esporádicas que ela conheceu, só vê o breu. ninguém foi luz suficiente. ou foram demais e a cegaram ou não se acenderam. então ela olha pro alto e muda de pensamento. mas o céu também está todo escuro. ela fala pra ninguém: olha o poço aqui do meu lado. esperançosa que alguém pule junto ou arranque-a de lá.  eu não vou pular, eu não vou pular - pensa ela com as pernas lá dentro.


"A desilusão é a visita da verdade." Chico Xavier

"Aprendi que a desilusão é uma das piores dores. Pois ninguém se ilude com aqueles que conhece, mas sim com os que pensa que conhece." Helber Chin Ku Chon Choo

"Escrever é um dom que se aprimora com a depressão." Bianka Raphaela



sábado, 14 de maio de 2011

Não corro mais perigo de correr perigo

Foram três meses e três dias de tentativas infrutíferas de perigo. Só tentativas. Dizem que o prazo é de noventa dias, e olha só a minha audácia, ultrapassei três. Que também era a quantia de perigos - de diferentes níveis, mas perigos. Pensava que dessa vez algo fluisse. Pelo menos uma vez. Não fluiu e todos combinaram de me esquecer ao mesmo tempo. São ótimos em armações. E eu achando que havia riscos. Me arrisquei por ninguém. Lamentável, porque era isso que eu procurava. Correr riscos. Me sentir viva. E no final sair ilesa. Outra vez. Não teve perigo e não saí ilesa. Paradoxal. Outra vez. Me mataram. Outra vez. A vida acha que eu adoro situações paradoxais e reservou uma carga delas pra mim. Não, eu não gosto. Eu queria momentos inteligíveis e não tive nada além de fazer os curativos. Outra vez. Não tenho tino pra ser enfermeira, tá vida?
Eu poderia ir atrás de todas as possibilidades de perigo, mas eu já fui uma vez. Outra vez seria não ter amor próprio. Que venha até mim. Se souberam sumir, saberão aparecer quando convir. A questão é que não virão. Eu conheço o meu eleitorado covarde e orgulhoso. Embora eu quisesse que apenas um acordasse pra vida e continuasse de onde parou. Mas enfim, isso certamente não vai acontecer porque eu devo ser o ser mais monótono do planeta. Não é possível que esses comportamentos alheios aconteçam comigo por outros motivos. Ah, eu devo ser um ser cansativo. Claro. Como se correr perigo também não fosse cansativo. Mas veja só, eu sou forte, eu ignoro o cansaço e tento. Tento até cansar. E não cansada o suficiente, fico pensando que se eu tivesse tentado de outra forma talvez tivesse conseguido e tramo outras tentativas. Assim, eu pelo menos posso me orgulhar de ter tentando várias vezes. E não só uma, como vocês habitualmente fazem. Fazem assim e fazem errado. Não me dão tempo nem de ensinar como é que se faz. Não dão tempo nem pro tempo. Se subestimam ou se superestimam. São egoístas demais ou medrosos demais. Não sei. Mas sozinhos vão continuar sendo o que são: ninguém desconsiderando alguém que pensa em vocês.

"We could have had it all
(You're gonna wish you never had met me)
Rolling in the deep
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)
You had my heart inside of your hand
(You're gonna wish you never had met me)
And you played it to the beat
(Tears are gonna fall, rolling in the deep)"
Rolling in the deep - Adele

domingo, 8 de maio de 2011

our hopes and expectations

Play: Muse, Starlight. Daquelas que são ótimas quando se quer inspiração, força ou esperança. Já fiz uso dela nas três situações, pena que esqueci hoje. Caberia. Eu fui lá, dei uma volta. Estava quente e eu com vontade de ver como as coisas sairiam. Não sairam. Ignorância alheia. Concluiu precipitadamente algo que foi apenas uma amostra pertubada do que poderia ser. Não foi. Não foi e eu perdi. 2X0 contra mim. Perdi o que quase tive e o que eu não queria ter mas me divertia. Fiquei sem nada, só espaço vazio do meu lado em qualquer banco ou sofá. Só mais espaço em branco pra preencher no coração. Na verdade, acho que a cada perda não fica espaço aberto. Instantaneamente o espaço se fecha pra nunca mais ser pintado. Nem branco, nem cores. Só rabiscos. Eu sou um rascunho. Sou as folhas ainda não usadas que alguém amassou porque desistiu de usar. Eu entendo porque o ignorante age do jeito que está agindo, mas não concordo. Não é assim que se mantém as amizades, nem mesmo aquelas que ainda não o são e nem seriam. Era apenas coleguismo. Era uma desconhecida conversando durante absurdas horas com um canceriano desconhecido. Seguiria sendo isso até um dos dois cansar de frequentar o mesmo espaço do outro. Agora, um não quer falar com outro mas continua indo no mesmo lugar. Provocação. Joguinho de gato e rato. Só que ele esqueceu do principal: eu sou a raposa. Deve ser só pra me testar. Ele disse que testava as pessoas. Bem me lembro. Disse isso e eu nunca me esqueci. Disse isso provavelmente em um dia bonito de esperança em que ouvi Starlight. Agora uso a música pra escrever isso, ou seja, para inspiração. Não há mais esperança. Dessa vez eu só preciso de força para suportar as minhas expectativas. Embora fosse melhor não cultivá-las. Eu não esperava isso dele, apesar de saber de que se tratava de um ser misterioso. Eu disse isso pra ele - bem me lembro. Ele respondeu - "não sou" - surpreso com a minha opinião. Hoje já não o acho misterioso. Acho nada. Deve ser a burrice que encobriu aquele corpinho enxuto e impediu que algo bom transpareça.

"Na boca do mentiroso, até a verdade é suspeita." Jacinto Benavente y Martinez

"A coisa mais bela que o homem pode experimentar é o mistério. É essa emoção fundamental que está na raíz de toda ciência e toda arte." Albert Einstein

"Quanto maior o desejo por desvendar um mistério, maior valor será atribuído à descoberta." Danilo Gomes