sábado, 30 de abril de 2011

O blusão azul

O shopping. Lá, no mesmo lugar de sempre e todo modificado. Lindo. Apesar de não estar finalizado. Lindo. Quando pus os pés logo notei a diferença. Mais clean, menos gente. Mais espaço pra eu fantasiar que o mundo é grande. O mundo é enorme e eu sou tão pequena - pensava eu. Entrei nas três lojas que costumava entrar quando ainda não era quem sou. Na primeira não senti nada que me deixasse contente. Estava como sempre esteve e a coca-cola cara. Segui adiante. C&A. Cheiro de roupa nova. Cheiro que desencadeou lembranças dos velhos tempos. Aqueles de infância. Aqueles que por vezes eu me esforço pra lembrar. Lembrar do cheiro e sentir - eu faço isso. Sinestesia. Percorri a loja vendo os preços e pensando: eu não deveria ser pobre. Mas, pobre mesmo é aquele que não tem a sensibilidade de ficar feliz sem motivo aparente. Então sou rica. Eu estava rica naquele dia. Dali parti para a Renner. A minha preferida. Vazia. Era récem pouco mais do que meio-dia, natural que tudo ali parecesse abandonado - parecido comigo na semana que passou - mas com toda a expectativa de movimentação - parecido comigo atualmente. Roupas e mais roupas, para todos os estilos. Para todos os bolsos. Para todas as carências. Esse é o tipo de loja que sempre tem um grupo de mulheres se desfazendo de ilusões em troca de algo que elas vão comprar e chamar de seu, sem receio de que fuja do guarda-roupa por não estar se sentindo adequado para aquele espaço. Mas enfim. Eu estava bem pacas. Eu estava matando o que me matava. Tendo acesso a novidades, a cores, tamanhos, e escada rolante! Nem me lembrava que existia. HAHAHA Mas antes de ir para o segundo piso, eu fui me esgueirando pelos cantos e me encontrei com ele. O blusão azul mais lindo que já vi. Eu peguei, olhei, pensei, olhei de novo. Preciso experimentar. Onde estão os provadores? Sumiram. Depois de alguns segundos após a escada rolante me deparei com um. Entrei e me vi com ele. O blusão. Que bonito e não é caro. Mas eu não preciso, eu não preciso. É óbvio que eu preciso. Preciso de uma vida nova, quem dirá de um blusão. A capricorniana não me deixou levá-lo. Primeiro a vida, depois o blusão - foi o que eu ouvi de mim. Eu saí de lá pensando que a vida eu já tinha e naquele momento estava se renovando. A Bruna 2011 não é a mesma de 2010. E a de ontem não é a mesma de hoje, a qual não será a mesma de amanhã. Eu tenho me vacinado com que seja doce, que seja doce e tem sido. Sensatez me acorda todos os dias me dizendo: vá trabalhar, tu ainda tem muita vida pra viver, muita gente pra conhecer, muito tombo pra cair e rir depois. Eu não desobedeço a sensatez. Ela tem razão. Disciplina acima de tudo.

Ao sair da loja eu só pensava: minha mãe ia adorar vir aqui. Ela detesta shopping. E eu tenho esperança nas pessoas. Eu tenho. Pra onde eu vou? Pra Feevale, já? Não. Pelo amor de Deus, não. Não fui, eu vistoriei o segundo piso do shopping como se estivesse procurando um fugitivo. Eu percorri meus olhos em cada novidade que se apresentava na minha frente e ao meu lado. Em quem estava sentado nos bancos, gente sozinha, gente namorando. Lojas e mais lojas. Joalherias, óticas, quinquilharias. CVC. Bariloche. Tentador, entrar numa agência de viagem e dizer: eu quero ir pra qualquer lugar com neve, já. Não me diga pra onde, só me leve. Tentador. Mais tentador do que isso foi entrar na praça de alimentação toda reformulada, cheirosa e LOTADA. Todos estavam lá. Achei todos que fugiam da agitação da cidade. E imaginei o que cada pessoa que lá estava tem guardado no coração. Quantos problemas ali estavam sendo resolvidos. Quantas novidades sendo compartilhadas. Quantas aflições impedindo o progresso. Quanta gente cansada da vida que tem, indo almoçar ali todos os dias, sendo que eu estava tão feliz por estar ali. Só passando por ali. Tanta gente se queixando do emprego, do chefe ou do vizinho. E eu ali, só com o dinheiro da passagem e da futura coca que ia tomar. Feliz pra cacete, apesar de ter um futuro profissional incerto, não ter com quem dividir uma mesa na hora do almoço e ter almoçado um sanduba. Paradoxal.

Quase no tempo de dizer adeus às horas maravilhosas, avistei mais uma escada rolante. Pra onde essa me leva? Subiiiindo. CI-NE-MA. Óóóóóóó, CI-NE-MA. Não, não vai ter postagem sobre. A última vez em que fui num ainda não tinha muitos sonhos que tenho. Era 2005. Constantine. Saí do cinema sem entender o filme, mas me certifiquei que Keanu Reeves tem o seu valor. Voltando pra realidade, desci todas as escadas, ou melhor, todos os andares porque o que descia eram as escadas, não eu. HAHAHA Me sentei em um  banco, liguei meu mp4 porque aquele momento merecia uma música. Qualquer uma sem nexo, a única exigência era ter o espírito de alegria que me envolvia. Procurei papel e caneta, mas na minha bolsa só tinha o forro furado. Meu Deus, eu preciso anotar o que estou sentindo - essa era a única preocupação que dividia o espaço com a satisfação de estar bem. Tudo bem, as anotações foram mentais. Sem pertubações ou distorções. O alzheirmer tinha que esquecer de mim até a hora desse post. Foi um moço educado e permitiu que eu não esquecesse do que queria lembrar. Eu saí do shopping, voltei ao Big e comprei a coca-cola que me acompanharia até a parada do ônibus. E lá eu esperei, esperei, esperei e vi o ônibus que eu devia pegar indo pra Feevale sem mim. Que burra. Então eu continuei esperando, esperando, esperando. Olhando toda aquela gente, lembrando do que tinha passado nas últimas 3 horas. O mundo é tão grande. Entrei no ônibus, paguei a passagem. Me acomodei e o mundo é pequeno. Um colega de trabalho sentado à minha frente me cumprimentou. É, o mundo é pequeno. Eu tinha passado 3 horas num mundo que ninguém me reconhecia e eu também não conhecia ninguém. E por isso tava tudo tão legal. Eu tenho sede de novidade. Quase chegando na Feevale, olhando pras pessoas do ônibus eu vejo outro colega de trabalho. Ah não, o mundo é minúsculo. A grandeza tá no coração.



“Então, que seja doce. Repito todas as manhãs, ao abrir as janelas para deixar entrar o sol ou o cinza dos dias, bem assim: que seja doce. Quando há sol, e esse sol bate na minha cara amassada do sono ou da insônia, contemplando as partículas de poeira soltas no ar, feito um pequeno universo, repito sete vezes para dar sorte: que seja doce que seja doce que seja doce e assim por diante. Mas, se alguém me perguntasse o que deverá ser doce, talvez não saiba responder. Tudo é tão vago como se fosse nada.”
Caio F. Abreu

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