sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

27 de fevereiro: bons ventos o trazem

"Depois de várias tempestades e naufrágios, o que fica em mim é cada vez mais essencial e verdadeiro."

É desse jeito que começo. Uma frase do Caio que embora pareça de temperamento triste, hoje me obrigo a vê-la de outra forma. Entre tempestades e naufrágios há também espaçamentos de felicidades feitas de acontecimentos inesperados - mesmo assim tão aguardados. Por isso, não discorrerei lástimas nem descreverei penúrias momentâneas, agora. Minha alegria me impede de tal blasfemia. Seria um insulto irreparável para comigo mesma menosprezar as dádivas que enlaçaram meu fim de semana como um pacotão de embalagem colorida pronta para alegrar uma criança no Natal. Renascimento, chamaria assim. Sinto-me como alguém que reagiu a uma chaga de anos, rejuvenescendo a mente, o corpo e alma - principalmente. Não encontrei o pote de ouro no final do arco-íris nem ouvi o galope do cavalo branco de um príncipe me procurando. Nada disso, algo melhor. Para cada 29 "nãos" que recebo, surge 1 "sim" quando o coração já se acomodou como um cachorro em dia de chuva. Amanhã esse sentimento de "demorou, mas consegui" venha a diminuir. Porém, o alívio de não ter que caçar do mesmo modo me acompanhará por alguns longos dias. Os quais tenho pra mim que passaram rápido.

"Mas de tudo isso, me ficaram coisas tão boas... Uma lembrança boa de você, uma vontade de cuidar melhor de mim, de ser melhor para mim e para os outros. De não morrer, de não sufocar, de continuar sentindo encantamento por alguma outra pessoa que o futuro trará, porque sempre traz, e então não repetir nenhum comportamento. Ser novo."

De Caio F. Abreu, só dele.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Arquivos Ocultos

Ontem, organizando de forma semi-organizada, os arquivos no meu velho computador, reli alguns textos de meses atrás. Surpreendeu-me a linha nobre e fina com que confeccionei a teia que só eu compreendo. É estranha a sensação de que, apesar de pôr em palavras e parágrafos, o conteúdo do material escrito seja inteligível de maneira única e eficaz apenas a quem compôs. Claro, é natural que outras pessoas cheguem a conclusões diferenciadas do que tudo aquilo quis dizer, mas nenhuma de modo objetivo e certeiro. Faço uso das palavras, às vezes sem metáforas ou analogias, como se fossem códigos. No entanto, tal peripécia permeia estâncias que me distanciam do propósito inicial, provocando o esquecimento e anulando por geral todas as possibilidades de descoberta. Não sei se é fraqueza utilizar desse meio pra manter como minha todas as vivências que tenho, sob um prisma de quem as vive e quer guardar e não de quem quer compartilhá-la. Por enquanto, além das frustrações habituais e correntes de quem codifica os olhares, sinais, palavras e momentos, continuo mantendo desse artifício pra mostrar a mim mesma que tenho alguma história que vale a pena reviver pelas palavras. Histórias em arquivos ocultos.

"Não é que vivo em eterna mutação, com novas adaptações a meu renovado viver e nunca chego ao fim de cada um dos modos de existir. Vivo de esboços não acabados e vacilantes. Mas equilibro-me como posso, entre mim e eu, entre mim e os homens, entre mim e o Deus."

"Minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite."

"Eu não me impunha um papel, mas me organizara para ser compreendida por mim, não suportaria não me encontrar no catálogo. Minha pergunta, se havia, não era: 'que sou', mas 'entre quais eu sou'."

"A palavra é o meu domínio sobre o mundo."

Sabedoria noturna das idéias de Clarice Lispector