quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

A Tristeza Que Move O (Meu) Mundo

Algo me faltara para que eu esteja aqui de volta. Comida, calor, emprego; gente. Hoje, 20 anos e 1 mês; eu. Me faltara como quem se alimenta de água suja de pedra. Me faltara e me fizeste fazer milagre descrente de sua existência. Me faltara como ainda se faz presente. Não peço migalhas nem trocados; não mendigo ainda. Mas, como perspectivar o algo que me falta sem a luz que outrora ainda me acordava? Facho de luz desmilinguido que sem grandes esforços preenchia o dia mais nublado com tamanha alegria.
Os dias agora, mesmo os de sol, são insuportáveis como se as semanas fossem só de domingos. As tardes quentes, mesmo as chuvosas, são longas e pesadas. E as noites, que há tão pouco eram iluminadas, não servem de nada. A tristeza vai girando, acompanhando o mundo nesse descompasso de quem cambaleia desnorteado - cega pela procura da luz que me faltara.

"Eu sentia profunda falta de alguma coisa que não sabia o que era. Sabia só que doía, doía. Sem remédio. [...] Que algo sempre nos falta — o que chamamos de Deus, o que chamamos de amor, saúde, dinheiro, esperança ou paz. Sentir sede, faz parte. E atormenta. Como a vida é tecelã imprevisível, e ponto dado aqui vezenquando só vai ser arrematado lá na frente."

"A vida era muito dura. Não chegávamos a passar fome ou frio ou nenhuma dessas coisas. Mas era dura porque era sem cor, sem ritmo e também sem forma. Os dias passavam, passavam e passavam, alcançavam as semanas, dobravam as quinzenas, atingiam os meses, acumulavam-se em anos, amontoavam-se em décadas — e nada acontecia. Eu tinha a impressão de viver dentro de uma enorme e vazia bola de gás, em constante rotação."

"Então eu te disse que o que me doíam essas esperas, esses chamados que não vinham e quando vinham sempre e nunca traziam nem a palavra e às vezes nem a pessoa exatas. E que eu me recriminava por estar sempre esperando que nada fosse como eu esperava, ainda que soubesse.”

"Ando meio fatigado de procuras inúteis e sedes afetivas insaciáveis."

Palavras, roubadas de dentro de mim, de Caio Fernando Abreu

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

Caios e Clarices, meus anestesiantes

É surpreendente como existe gente complicada e complicante. Tendo uma brecha pra dificultar a caminhada alheia, lá estão, orgulhosas por serem a pedra de Drummond. Por mais que chutemos, receberemos de onde nem imaginamos tijoladas, concretadas e conteiners de empecilhos. Dizem que quanto maior a for dificuldade enfrentada, mais valerá o resultado final. A questão é que alcançar a meta diante de tantas adversidades sem auxílio e sem escora é desequilibrante e desmotivante.
Cada chaga tem um remédio, o mesmo vale pra medicar a mente, a alma e o coração. Há cultos, ritos, viagens, músicas e poesias. Pra encarar o caminho e não se intimidar perante as pedras postas milimetral e propositalmente, eu utilizo de todos mecanismos e ferramentas já citados. Às vezes só uma horinha de música me dá a força do Popeye, noutras preciso de catorze linhas de um bom conselho literário. Escrever também resolve, como estou fazendo agora.
O certo é que Caio, Clarice, Cecília, Fernando e tantos outros escritores podem te ferir e remediar feito num toque de mágica. Não é necessário diagnóstico, consulta ou prescrição médica. Eles estão disponíveis, livres, leves e soltos nas prateleiras de bibliotecas cheias de ácaros e traças, livrarias iluminadas ou em sites especializados no assunto. E agora, nesse blog criado assim, em cinco minutos de inspiração; Me auto-medico e te indico a fazer o mesmo.

Pra hoje trago dois, vejam, leiam, releiam, entendam, constetem e me digam se te curaram ou te feriram. Puro e verdadeiro placebo remediável.

"Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso. Nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro." Clarice Lispector

"Não choro mais. Na verdade, nem sequer entendo porque digo mais, se não estou certo se alguma vez chorei. Acho que sim, um dia. Quando havia dor. Agora só resta uma coisa seca. Dentro, fora." Caio Fernando Abreu